 |
O
ESTADO DE SÃO PAULO
17 de dezembro de 2000
Sistema
S em questão
INÉRCIA,
ACOMODAÇÃO E MEDO DE MUDANÇAS QUE MEXAM COM INTERESSES POLÍTICOS
EXPLICAM SUA MANUTENÇÃO
SUELY CALDAS
- E-mails, cartas e telefonemas
recebidos na última semana estimulam a volta ao tema de domingo
passado - os desvios do dinheiro do Sistema S (Senai, Sesi,
Senac, Sesc, Sest, Senat e Senar, Sescoop). Extraem-se das manifestações
dos leitores sentimento de indignação e desejo de mudar, abolir
mais este corporativo privilégio do passado, que obriga a população
inteira a pagar R$ 3 bilhões por um tributo, usado indevidamente
no sustento de estruturas caras de entidades empresariais. É
como se todos os brasileiros contribuíssem com cotas para financiar
um clube restrito e fechado do qual não são sócios, não conhecem,
nem usufrem de suas atividades.
- O presidente da Federação
de Serviços do Estado de São Paulo, Luigi Nese, informa feliz
ter vencido disputa jurídica com a Federação do Comércio de
São Paulo, que livrou 25 mil empresas paulistas do recolhimento
da taxa de 2,5% sobre o total da folha de pagamento. "Com essa
sentença a receita do Sesc e Senac em São Paulo foi reduzida
em 30%, cerca de R$ 180 milhões/ ano", avalia. Nese informa
outra anomalia do Sistema S: os cursos do Senac para treinar
trabalhadores em informática, hotelaria e outros são pagos,
não gratuitos como determina a lei. Ou seja, além de usar o
dinheiro para pagar suas contas, a Federação do Comércio de
São Paulo vende cursos, cuja gratuidade é a razão da existência
do Senac. O leitor Gilson José Batista, de São Paulo, relata
o caso de uma cabeleireira, a quem o Senac exigiu mensalidade
cara e segundo grau completo para fazer um curso.
- Impossibilitada de cumprir
as duas exigências acabou vetada.
- A leitora Manuela Machado
destaca dois males que contribuem para prolongar absurdos brasileiros:
a inércia e o desconhecimento da população do que e quanto paga
em tributos. Só mesmo a inércia, a acomodação, o medo de mudanças
que mexam com interesses políticos explicam a manutenção do
Sistema S, exatamente como foi criado há 60 anos. Aquela máxima
"imposto bom é imposto velho" é muito bem aplicada nesse caso.
Não importa se o dinheiro é desviado ou a qualificação de trabalhadores
é ineficaz. Se o custo do imposto já está incorporado à estrutura
de preços da economia, melhor deixar como está, ninguém vai
questionar mesmo.
- Na linha da análise
de Luigi Nese, o presidente da Federação Nacional da Cultura,
Walter de Andrade, comenta: "Cada integrante do Sistema S constitui
um Estado dentro do Estado. Em favor de sua defesa em tribunais,
cada "S" se declara entidade paraestatal, mas para fugir ao
crivo do Tribunal de Contas da União se declara entidade privada
sem fins lucrativos." Aliás, controle e fiscalização são raridades
nas contas do Sistema S.
- Essa dubiedade está
presente no roteiro do dinheiro do Sistema S. A arrecadação
é feita pelo INSS, que repassa os recursos para o Ministério
do Trabalho, que distribui entre federações e confederações
da indústria, comércio, transportes, cooperativas e agricultura.
A responsabilidade pela fiscalização das empresas contribuintes,
autuações pelo não pagamento da taxa, etc., também é do INSS.
Ou seja, o Estado paga salários de funcionários que servem a
um sistema tributário que tem gestão privada e não gosta de
ser fiscalizado pelo TCU.
- Os dois dirigentes empresariais
propõem que federações e confederações de empresas vivam com
os próprios recursos, tanto contribuições voluntárias, cobrança
de prestação de serviços a seus associados, quanto outras fontes,
como qualquer associação representativa. Absurdo é sustentarem
suas estruturas com dinheiro público, pago pelo contribuinte.
Luigi Nese chama atenção para o antidemocrático sistema eleitoral
dessas entidades que, ao permitir a reeleição indefinidamente,
faz com que seus dirigentes se eternizem nos cargos. Lembra
que Antonio de Oliveira Santos e Abrahan Szajman ocupam as presidências
da Confederação Nacional do Comércio (CNC) e Federação do Comércio
de São Paulo há mais de 20 anos. Quinze anos depois do fim dos
governos militares, a democracia ainda não chegou a essas entidades.
- Aliás, a CNC também
escreveu: não responde a nenhum questionamento do artigo de
domingo passado e misteriosamente atribui aos "países desenvolvidos"
o interesse conspiratório em criticar o Sistema S.
- As empresas contribuintes
pagam caro e raramente vêem o dinheiro devolvido em treinamento
e qualificação profissional de seus empregados. A insatisfação
com a gestão dos recursos e a qualidade dos cursos profissionalizantes
é crescente. O governo FHC, que tanto se orgulha de ter modernizado
e virado pelo avesso o Estado brasileiro, continua devendo esta,
tem a obrigação de deflagrar o debate, fazer estudos de avaliação,
consultar as empresas sobre os cursos, a extinção da taxa, mudanças
na gestão do dinheiro, questionar a si próprio se o contribuinte
brasileiro merece continuar pagando salários de funcionários
do INSS e do Ministério do Trabalho para servirem a entidades
privadas. O Congresso precisa ser mais enérgico, menos sensível
a lobbies e determinar ao Tribunal de Contas da União uma fiscalização
profunda nas contas do Sistema S, com fiscais visitando e auditando
os números dos Senac e Sesi da vida. É preciso mudar e o debate
vai indicar o melhor caminho.
 |
| Suely Caldas é jornalista e-mail: sucaldas@estado.com.br |
|
 |